A reformulação do PAC anunciada em Brasília no início de junho alterou a fila de obras em rodovias federais no Nordeste. Segundo técnicos do Ministério dos Transportes ouvidos pela reportagem, a nova lista privilegia trechos com licenciamento ambiental concluído, projetos executivos acima de 80% de avanço e contratos de engenharia já em fase de homologação. A mudança responde a uma crítica recorrente de gestores regionais: obras anunciadas sem condição de execução imediata geravam expectativa sem entrega concreta.
No caso da BR-101, o trecho entre Feira de Santana e Salvador permanece como prioridade máxima na Bahia. O DNIT estima R$ 1,8 bilhão em investimentos para duplicação de 116 km, com desapropriações previstas para iniciar no terceiro trimestre de 2026. Em Pernambuco, a atenção se concentra no corredor Recife–Natal, onde o gargalo em Abreu e Lima foi incluído em pacote de obras com prazo contratual de 36 meses.
Critérios da nova lista
Três critérios orientam a seleção: viabilidade jurídica (licenças e desapropriações), capacidade de execução (empresas habilitadas e orçamento empenhado) e impacto logístico mensurável. Trechos que dependem de estudos complementares ou de acordos ainda não firmados com estados foram movidos para uma lista secundária, com revisão semestral.
Para prefeitos e secretários de infraestrutura da região, a distinção entre listas é importante. Projetos na lista principal têm previsão de licitação até dezembro de 2026; os demais ficam condicionados a marcos específicos, como conclusão de estudos de tráfego ou liberação de faixas de domínio por tribunais estaduais.
BR-116 e o corredor de exportação
A BR-116, eixo que liga o Sudeste ao Nordeste, concentra outro bloco de investimentos. No Rio Grande do Norte, a duplicação entre Mossoró e Natal entrou na lista principal após resolução de pendências ambientais em áreas de dunas costeiras. Em contrapartida, trechos no interior da Paraíba que enfrentavam resistência de comunidades quilombolas permanecem em avaliação, com audiências públicas marcadas para julho.
O PAC deixou de ser uma vitrine de anúncios e passou a funcionar como fila de execução. Isso muda a conversa com estados e municípios — disse secretário de infraestrutura ouvido pela reportagem, preferindo não se identificar.
O corredor de exportação de fruticultura e aquicultura do Rio Grande do Norte e Ceará depende diretamente dessas duplicações. Transportadoras consultadas estimam redução de 15% no tempo de viagem entre Mossoró e o porto de Natal quando a obra estiver concluída, o que afeta especialmente a cadeia de melão e camarão para a Europa.
Orçamento e emendas
A execução orçamentária continua sendo o ponto sensível. Parte dos recursos do PAC depende de emendas parlamentares e de contrapartidas estaduais que nem sempre se materializam no prazo. Na Bahia, o governo estadual confirmou contrapartida de 12% para o trecho Feira–Salvador; em Pernambuco, a negociação sobre custos de desapropriação em área metropolitana segue em curso.
Analistas de infraestrutura consultados pela redação avaliam que a reforma do PAC aumenta a previsibilidade, mas não elimina riscos de atraso. Licitações complexas, chuvas no semiárido que interrompem canteiros e disputas judiciais sobre indenizações continuam sendo fatores de incerteza.
O que acompanhar nos próximos meses
Entre julho e setembro de 2026, o DNIT deve publicar editais para pelo menos quatro lotes no Nordeste. Gestores locais devem monitorar três indicadores: publicação de editais, percentual de empenho orçamentário e cronograma de desapropriações. Comunidades afetadas por obras devem acompanhar audiências públicas e canais de ouvidoria do ministério.
Para o transportador de cargas e o motorista de linha regular, a reforma do PAC significa, na prática, uma fila mais transparente — mas ainda longa. O Nordeste acumula décadas de déficit em duplicações, e a nova lista é um passo de organização, não a conclusão das obras.